domingo, agosto 28, 2005

ESCRAVATURA EM PORTUGAL

Chineses pagam milhares de contos às máfias para entrarem no País. E não podem
sair da linha.
Os empregados dos tão populares restaurantes chineses pagam milhares de contos
para chegarem a Portugal. As máfias chinesas controlam toda a imigração ilegal e
exploram os imigrantes que procuram uma vida melhor: uma violência tão activa
como as máfias de Leste, mas com contornos bem diferentes.
Nos últimos meses mais chineses atravessaram as fronteiras e instalaram-se por
cá. Um destino final difícil de conquistar. As organizações chinesas estão
instaladas por todo o mundo e não são fáceis de apanhar.
E porquê? «Estamos perante uma cultura discreta e um país de origem distante. No
entanto, os maiores empecilhos são a perfeição usada na falsificação de
documentos e a organização extrema que estas estruturas possuem», explica ao
PortugalDiário um dos inspectores do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF).
Apesar da discrição, as organizações chinesas estão bem presentes na sociedade
portuguesa. Facto facilmente comprovado pelos muitos restaurantes chineses que
abriram nos últimos anos. Os empregados mudam constantemente de local de
trabalho de modo a despistar as autoridades.
A mobilidade constitui uma das estratégias utilizadas para o sucesso da
implementação de chineses em todo o mundo. «Querem sair do país de origem a
qualquer custo. Pagam milhares de contos e entregam-se nas mãos das
organizações. É a única forma que têm de ter uma vida melhor», adianta.
A esperança de melhores dias demora muitas vezes a chegar. E tudo começa na
viagem. Os imigrantes ao deixarem a China não sabem o que vão encontrar. Em
muitos casos nem sequer sabem qual o país em que vão ficar. Apenas desejam que
seja na União Europeia ou nos EUA. «Durante muitos anos os Estados Unidos eram o
país escolhido como destino final. Mas nos últimos tempos a UE passou a ser
igualmente procurada», conta o inspector do SEF.
Um destino final que pode demorar semanas a chegar. Cada imigrante que sai da
China entrega os seus documentos à organização. Isto porque, passar fronteiras
com passaportes chineses é muito difícil. Documentos falsos ou falsificados de
países como Singapura, Japão, Reino Unido ou mesmo americanos são o meio para
entrar.
«As viagens podem demorar semanas, uma vez que passam por muitos países. Chegam
a ir para o continente africano ou para a América do Sul. Nestes locais é mais
fácil conseguir vistos nas embaixadas. Só depois entram no espaço Schengen. A
diversidade e dinâmica das rotas é muito difícil de seguir», explica.
Uma vez no país de destino os imigrantes são instalados em restaurantes
chineses, na sua maioria, ou em pequenas empresas têxteis. Na maior parte dos
casos, os patrões acabam por ser obrigados, pelas máfias, a aceitar os novos
imigrantes.
Os cidadãos chineses são recebidos na sua comunidade e muito raramente conseguem
sair do seu meio. Com uma cultura de respeito, perfeição e discrição não é fácil
dar por eles. Alguns ficam ligados às redes até terem pago a dívida. Os poucos
casos de desobediência são punidos severamente. Quer por ameaças à família, que
deixaram para trás, quer com agressões físicas que podem levar à morte.
O financiamento dos vários restaurantes é uma das questões que os elementos do
SEF ainda não conseguiram apurar totalmente. Assim como muitas outras
estratégias, que encontram na língua a primeira e uma das principais barreiras.
Em Portugal estão cerca de quatro mil chineses com autorização de residência. A
estes juntam-se mais quatro mil com autorização de permanência. Em situação
ilegal estarão também muitos. Mas são estrangeiros que o SEF não consegue
contabilizar. A detenção de cada vez mais chineses nos postos de fronteira que
tentam imigrar para Londres e o aumento de processos-crime, por falsificação de
documentos, fazem acreditar que há cada vez mais chineses entre nós.
Uma realidade que, à partida, não interfere com o cidadão português. Uma vez
que, uma das filosofias orientais é não incomodar, para não ser incomodado.
NOVO PRESS