domingo, janeiro 08, 2006

Luxo e conforto: aristocracia e capitalismo


Esta afirmação soará a heresia para os ouvidos burgueses. A burguesia não a entendemos propriamente um grupo social, mas uma atitude envolta em códigos éticos [condutas] e expectativas de vida. Indissociavelmente ligada ao capitalismo, concebe o jogo social e o protagonismo dos indivíduos e das sociedades como um permanente concurso pela diferenciação de status aferido pela riqueza, pela propriedade e influência; logo, todo o comportamento burguês é, sem tirar nem por, um "negócio" permanente. Os clássicos Amor, Luxo e Capitalismo, de Werner Sombart, e a monumental Sociedade de Corte, de Elias, caracterizam-no eloquentemente. Para a aristocracia - aqui também entendida como uma estética moral - uma taça de champanhe, uma refeição extraordinária, uma noite numa suite de palácio são luxos, experiências únicas, ritualizadas, que não devem exceder o momento da fruição e perduram como momentos excepcionais. Para o burguês, passa-se o inverso. Dessa viciação no conforto nasce uma ética para o consumo excedente, para o permanente ludíbrio dos sentidos e a submissão aos ditames do organismo. Se a burguesia tem realizado excepcionais obras, se tem sido, nos últimos duzentos anos, o motor das sociedades ocidentais, carreia consigo os defeitos dessa qualidade: cultiva o egoísmo, produz despeito, ressentimento e exclusão. A aristocracia era, ao invés, bem mais acolhedora da diferença, inculcando deveres para os outros que se revelaram bem mais saudáveis pela ética de serviço e entrega. A civilização que temos, parece não ser, pois, a civilização Ocidental, mas a civilização do capitalismo. Tudo se compra, tudo se vende e regateia. Onde tudo tem um preço, aquilo que não se vende é menos que inútil: é gratuito. Houve um tempo em que o burguês quis ser aristocrata. De tão repetida a tese de Max Weber, habitualmente mal interpretada, julgou-se que a burguesia produzira uma "ideologia burguesa". Mas não. A velha burguesia julgou possível, pelo mérito, ascender à aristocracia, usurpando-a. Esta errância esbarrou, contudo, com a maior contrariedade: a sempiterna incapacidade de se ser quando não existe maturação. Para se vingar, tornou-se revolucionária e tratou de destruir tudo aquilo que o dinheiro não pudesse comprar. Os mais veementes republicanos são, habitualmente, os mais ricos. "Se não puderes comprar, destrói", parece ser o lema dessa gente. Se abrirmos as revistas ditas do coração, deparamos com esse estendal de arrivismo agressivo, ostentatório e frívolo. Como tinha razão o velho Eugénio d'Ors quando afirmava: "onde não há tradição, há plágio".
Pilhado no Combustões